Em momentos anteriores, em vários momentos, disse da conformidade no momento da morte / disse que Jesus não sofreu nem um pouco na cruz/nem Denise nas mãos sangrentas de seu algoz/nem nos braços da morte/com tal afirmativa quis dizer que, mais do que a dor da própria morte, o que doi mesmo é perceber o sofrimento do pai diante do corpo estrangulado do filho.
               Comigo, na hora da tentativa de estrangulamento, quando dei-me conta de que eu já estava metade morto e, babando, sem poder gritar nem mover-se de forma alguma, vi que a minha própria morte era o de menos. Seria o de menos se eu não possuisse família representada, naquele momento, na imagem do meu pai.
           Não abalei-me nem um pouco com a minha própria morte. Não tive medo de morrer. ( A este respeito, ouça a música "Quem Vive Não Tem Medo da Morte", de Itamar Assumpção, na voz de Ney Matogrosso, no LP "Quem Vive Não Tem Medo da Morte." E foi exatamente desta ausência de medo da morte naquele momento crucial, que me salvou. Sem medo da morte, meu corpo, apesar de amarrado, atado por mil algemas, ainda teve forças para, de início, conseguir 1% de mobilidade, depois 2% de liberdade, até soltar-se totalmente.
           Sem medo morte, após ter-se despedido desta vida, de ter-se conformado com a própria morte, não aceitou ser velado por seu pai, dentro de instantes, daquela forma, ou seja, estrangulado tal como ocorreu com Denise.  
             Desde o começo da criação do universo, 3 forças jogam sinuca. Estas forças chamam-se espiritualidade, sexualidade e matéria (sociabilidade). Naquele momento eu não passava de um joguete nas mãos de tais forças. Não tem a menor dúvida de que fui salvo pela espiritualidade. Por isso, a partir dali, não tenho a menor dúvida a respeito da existência de uma força superior que chamamos de Deus e que , para mim, tem um nome: Integral Perfeito, aquele aquele que é 100% vida. Posso até não acreditar na vida após a morte. Inclusive isto para mim não tem a menor importância. Quero o paraíso aqui, não depois da morte. Quero construir o céu aqui, agora, não após a morte. Nâo me interessa saber se existe vida após a morte. Interessa-me saber sim a minha história  tramada está sendo contada e, mais uma vez, peço que você não concorra comigo neste assunto de livrar-se de um estrangulamento. Se você quiser vivencie isto, tudo bem, mas através da sua capacidade criadora, sua arte, ok? Não quero que ninguém passe pelo que passei. MMMV lamenta ocorrido com Denise Ferreira Santos. O nome dela será escrito no meu corpo como aviso de que ela deixou neste planeta não apenas ossos no cemitério, mas o conhecimento que religa-nos a Deus, o Todo-Poderoso, o Criador de Todas as Coisas, o 100% Existente.
             Dissse sim, que Denise não sofreu nem um pouco no momento da morte. Alto lá, sofreu sim, não devido a própria morte que, naquele momento, tornou-se inevitável. Ela sofreu ao antever o sofrimento dos seus, representado na divina presença do seu pai vendo seu corpo dilacerado. Nem Jesus sofreu no momento da sua crucificação. No seu âmago, o seu pai havia aceitado a sua morte pela salvação da humanidade. Quanto a MMMV, isto não foi aceito. Como já foi dito, não foi aceito não por si mesmo, até mesmo porque já havia aceitado morrer.  O que não aceitou foi constatar o sofrimento do pai diante do corpo dilacerado do filho.
       Atadado por aquele estrangulador, MMMV estava 100% imobilizado. Notando não haver como escapar do abraço da morte, não teve outra alternativa senão acalmar-se, aceitar o inevitável: a morte. Amarrado, contido, dominado, sem voz,  não se conformou com a presença de seu pai vendo o corpo de seu filho estrangulado
              Neste sentido, MMMV foi salvo por seu pai, o qual havia visto na parte da manhã, numa espécie de estranha despedida.  Foi isto que levou MMMV, em sua frieza, em sua falta de medo da morrer, a reagir para sair daquela sinuca imposta pela morte tramada na calada da noite.  MMMV foi salvo não em nome de si mesmo mas em nome do seu pai. MMMV quer morrer assim, naturalmente, escrevendo, escrevendo até morrer, jamais estrangulado.
                  Que não se mate mais aqui nem ali no no Iraque, nem no Sudão, nem no  Haiti. Que as pessoas possam morrer naturalmente, de câncer, de AIDS, de cirrose hepática, jamais violentamente, abruptamente.  Que morrer seja um direito natural de todos nós. Que cada um de nós possa ser velado em pleno corpo físico, em todo o sólido, em todo o líquido... ( A este respeito ouça "Um Indio", de Caetano Veloso, na voz do spin cantor Ney Matogrosso).


Grato,

José Carlos Lima


Ao receber o momento 70º edite este livro grafando
Na capa: MMMV
Na contra-capa: Tudo o que há e o que não há é MMMV
Metade Morte Metade Vida
Somente o Integral Perfeito é 100% Vida
Idéia Sem Morte
Na apresentação: Nós gostaríamos que todos atentassem para esta realidade(assinada por escritores(as), artistas plásticos(as), cantor(es),etc)

O calendário da cidade-Estado de MMMV
Mês de Marte: 07/01 a 20/03. 73 dias (74 em ano bissexto)
Mês de Júpiter: 21/03 a 01/06. 73 dias
Mês de Saturno: 02/06 a 13/08. 73 dias
Mês de Urano: 14/08 a 25/10. 73 dias
Mês de Netuno: 26/10 a 06/01. 73 dias

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