Em momentos anteriores, em vários momentos, disse da conformidade no momento da morte / disse que Jesus não sofreu nem um pouco na cruz/nem Denise nas mãos sangrentas de seu algoz/nem nos braços da morte/com tal afirmativa quis dizer que, mais do que a dor da própria morte, o que doi mesmo é perceber o sofrimento do pai diante do corpo estrangulado do filho.
               Comigo, na hora da tentativa de estrangulamento, quando dei-me conta de que eu já estava metade morto e, babando, sem poder gritar nem mover-se de forma alguma, vi que a minha própria morte era o de menos. Seria o de menos se eu não possuisse família representada, naquele momento, na imagem do meu pai.
           Não abalei-me nem um pouco com a minha própria morte. Não tive medo de morrer. ( A este respeito, ouça a música "Quem Vive Não Tem Medo da Morte", de Itamar Assumpção, na voz de Ney Matogrosso, no LP "Quem Vive Não Tem Medo da Morte." E foi exatamente desta ausência de medo da morte naquele momento crucial, que me salvou. Sem medo da morte, meu corpo, apesar de amarrado, atado por mil algemas, ainda teve forças para, de início, conseguir 1% de mobilidade, depois 2% de liberdade, até soltar-se totalmente.
           Sem medo morte, após ter-se despedido desta vida, de ter-se conformado com a própria morte, não aceitou ser velado por seu pai, dentro de instantes, daquela forma, ou seja, estrangulado tal como ocorreu com Denise.